quarta-feira, 26 de abril de 2017

Trem da Morte até Santa Cruz (Bolívia/Peru em 2007, parte 5)

A primeira hora de viagem no Trem da Morte foi de extrema felicidade. Era a realização de um sonho, juntamente com a emoção de descobrir algo novo. Sonho porque quando eu vim à fronteira pela primeira vez, em 2001, tudo o que queria era continuar a viagem até La Paz. A novidade era porque andava de trem e entrava, de fato, em um país estrangeiro pela primeira vez.

Depois da correria, vi o quanto custou não apostar na compra da passagem diretamente no guichê e sim de um “agente” de turismo. Isto porque o “agente” na verdade era um cambista (sem aspas). A passagem na ferroviária custava bs. 115 (cento e quinze bolivianos)**, uns R$ 33 na cotação da época (R$ 1,00 = +- bs. 3,55), enquanto que Alberto nos cobrou R$ 50, sem avisar que teria um extra. Mas, confessemos, nenhum serviço é de graça, além do fato de que ele foi honesto em tudo que nos prometeu.

Estávamos na classe Super Pullman, a melhor do tipo de trem disponível naquele dia. Havia outros trens, que partiam em outros dias, que tinham classes superiores. Os bancos eram bons, aparentavam uma reforma há pouco tempo. Já as janelas eram velhas, difíceis de abrir e fechar. Tinha um bom ar condicionado e televisões que passaram filmes à noite. Pela tarde ligaram uma musiquinha instrumental tipicamente boliviana. Muito bom. Apesar de ser um trem, não havia cabines e, consequentemente, não era muito diferente que um ônibus brasileiro, exceto pela velocidade vagarosa. Aliás, extremamente vagarosa.

Trem da Morte / Super Pullman: logo após deixar a estação de Puerto Quijarro


O melhor de tudo era o nível de ocupação do nosso vagão. Quando comparei o preço do bilhete e vi que tínhamos pagado mais, à priori fiquei um pouco desapontado. Contudo, depois de perceber que não iria quase ninguém conosco, meu ânimo melhorou - pagamos mais, mas viajamos sossegados, cada um em dois bancos.

Então? Dormir? Eu não, meu caro. Se já gostava de ficar acordado a noite em viagens de ônibus por estradas que eu já havia passado mais de 50 vezes, imagina no famoso Trem da Morte, em um lugar que nunca estive? Ou melhor, na primeira atração de uma sonhada viagem?

Noite
Logo que o trem deixou a estação de Puerto Quijarro, dentro de mim se misturavam a emoção descomunal pelo momento, a adrenalina forte por tudo que tínhamos passado minutos atrás e o medo de ter deixado alguma coisa importante por fazer. Graças a DEUS, este medo não foi confirmado. Peguei o meu celular para checar as horas e notei que ainda havia sinal. Para me tranquilizar de tudo, tive a ideia - por que não gastar um pouco dos últimos reais de créditos e ligar para casa? Será que este sinal completa uma ligação? A lista de emoções ficou completa quando meu pai atendeu do outro lado.

Não acreditava. O trem lentamente ia se movendo entre os trilhos. Não muito longe, via Corumbá (MS) e o Rio Paraguai, que se afastavam lentamente. Neste cenário de entardecer, conversa com o pessoal lá de casa na última oportunidade que tinha de ligar de meu próprio telefone.

Comecei a seguir o caminho por meu mapa de estradas da Bolívia, comprado de uma loja virtual inglesa, já que não encontrei no Brasil (na verdade a loja não é apenas virtual, fica perto da Leicester Square em Londres, lugar que visitaria alguns anos mais tarde quando morei no Reino Unido). Até o anoitecer havíamos passado por uns quatro vilarejos, que naquela região podíamos considerá-los cidades. Eram pequenos conjuntos de casas bem simples, com ruas de terra, geralmente com mato em volta. Percebi que algumas vilas não possuíam iluminação pública e, por isto, com exceção de algumas lâmpadas das casas, ficavam completamente escuras à noite.

A fome apertou quando a noite caiu. A comida faltou (rs). Sem dinheiro boliviano (apenas com dólares e reais), não tivemos muitas alternativas. Dois de nós foram até o vagão restaurante e conversaram com o atendente. Voltaram dizendo que ele toparia trocar reais, mais por uma cotação BEM inferior ao câmbio normal. Negamos. Como minha comida reservada para a viagem faria a festa da imigração boliviana no dia seguinte, percebi que passaria a noite comendo algumas bolachas Negresco que havia comprado ainda na rodoviária de Goiânia.

Aquelas bolachas me salvaram a vida . Caíram muito bem no meu estômago, depois de um dia intenso. O meu problema maior era água. Comecei a filar um pouco dos outros, mas notei que todos estavam com a mesma necessidade. O engraçado é que no meio da nossa mobilização alimentícia, o rapaz que havia proposto o mal negócio do câmbio desvalorizado passou entre as nossas poltronas e disse em tom de anedota: ya has cenado? (já jantaram?). Rodrigo, perspicaz, apenas apontou um tubo de batatas fritas importadas, compradas na Zona Franca, que estava aberto e preso ao banco da frente.

Israelenses
Na poltrona ao lado da minha (da que estava marcado na minha passagem, não na que eu fui de fato), viajava uma brasileira. A Isabela (nome fictício) era paranaense e estava indo se encontrar com um grupo de israelenses que viajavam pela Bolívia. Era financiada pelos pais. Me deu a impressão que seus pais pagavam a viagem para se ver livres dela. Mesmo assim, era muito gente boa. Como a noite caiu e atrapalhou o meu passatempo predileto, que era ficar acompanhando os vilarejos, me juntei à conversa que ela já estava tendo com outros de nós, e ficamos horas ali. Tinha muita experiência com os judeus, nos explicou alguns detalhes da cultura hebraica e contou alguns casos.

Chochis perto de Roboré (Foto: Bolivia Turismo)
Não posso deixar de relatar dois detalhes da minha noite no trem. Já no meio da noite (por volta das 2h da manhã), passamos em uma cidade que, de vista, parecia maior do que a grande maioria. Quando o trem parou na estação, subiram umas mulheres oferecendo pastéis. A recomendação era não comprar comida de fora do trem, já que poderia não fazer muito bem para a saúde. Porém, os pastéis cheiravam TÃO bem, que a única coisa que me barrou foi a falta de bolivianos. Naquela hora não aguentei e decidi me arriscar no espanhol. Perguntei qual era aquela cidade. "Ro-o-rê, ro-o-rê", respondeu. Agradeci, mas fiquei na mesma. Peguei meu mapa e descobri que aquilo que ela havia regurgitado era certamente “Roboré”, uma cidade média para padrões da região, localizada entre a fronteira e San José de los Chiquitos, maior centro urbano até Santa Cruz.

Não sabia direito onde que era, mas não gostaria de dormir sem ver o Chochis. Então fiquei mais um pouco acordado, olhando pela janela, procurando-o. Em menos de meia hora comecei a ver sinais. O trem passou a fazer mais curvas e começou a cortar uns pequenos morros ao meio. Não tardou muito para eu vê-lo.

Para quem não conhece, o Chochis é uma montanha no meio da planície do Pantanal boliviano. Ou melhor, não é uma montanha comum, é um retângulo em pé no meio do nada, parecendo que seus lados foram cortados com uma faca. Uma caixa de fósforo em pé. O detalhe é que ele é MUITO alto, ultrapassando os 800 metros desde o chão. Ver o Chochis de dentro do trem, à noite, no meio da província de Santa Cruz, foi de arrepiar.

Depois disto não tive forças para mais nada. Dormi. Perdi quando o trem passou por San José. Acordei e já era dia, quando senti algo incomum. Minha garganta estava muito inflamada. Que tragédia. Tentei não desanimar, e comecei a chupar umas pastilhas. De cochilo em cochilo forçado, lembro-me que vi os primeiros sinais de Santa Cruz logo depois das oito da manhã. Me impressionou o fato da cidade ter o mesmo número de habitantes que Goiânia, mas, aparentemente, sem muitos prédios. Mais tarde eu os achei, mas não são tão grandes e tão numerosos como na nossa capital.

Bolivianos
Chegamos a estação. Hora de quê? De mais confusão. A falta de bolivianos ainda nos causava dor-de-cabeça. Não tínhamos um bolivianito sequer. Como ninguém estava à vontade em fazer câmbio na rodoviária (ou ferroviária, já que era uma estação bimodal), o jeito foi recorrermos a quem estava mais perto de nós. Na ocasião era Isabela. A menina também não tinha muitos bolivianos, mas o seu israelense estava lá para buscá-la.

Conversa vai, conversa vem, consegui que ela nos vendesse 20 bolivianos, o suficiente para tomarmos um taxi até o centro, onde o israelense nos indicou uma pousada. Não iríamos passar a noite, mas os demais queriam um lugar para tomar banho. Eu não ligava tanto para a sujeira, mas concordei, já que lamentaria andar o dia inteiro com aquela mochila pesada nas costas.

Desembarcando do trem em Santa Cruz de la Sierra
Saindo da estação, me lembrei de um conselho: "Na Bolívia tudo é negociável. Antes de pegar um táxi, pechinche, que você certamente terá um preço melhor", era o que mais ou menos estava escrito no meu guia de mochileiros. Então tá, enchi o peito e fui conversar com o motorista. Ele veio todo animado, começou a colocar nossas mochilas no bagageiro. A Lucimeire até já estava sentada no banco, quando fui negociar o preço. Fiz uma oferta (não me lembro bem, mas acho que era bs. 10). O rapaz nem olhou para a minha cara - na mesma hora começou a tirar nossas mochilas de seu carro e passou a indicar o ponto de ônibus. Falava que lá nós poderíamos pegar vans que nos levariam ao centro a baixo custo. Tudo bem, os cruceños (originais de Santa Cruz) são famosos mesmo por suas aptidões capitalistas em um país com simpatia socialista.

Logo depois veio outro táxi, e este conseguimos convencê-lo a nos levar por bs. 20**. Foi então que comecei a perceber o tanto que estava cansado. A dor de garganta me tirava o ânimo e toda aquela empolgação do dia anterior começou virar agonia. O trânsito da cidade, e descobriria mais tarde que não é exclusividade de Santa Cruz, era uma droga. Ninguém respeitava ninguém.

Se a derrota para o motorista de táxi não fosse o bastante, logo que chegamos à pousada indicada, levamos outro direto na cara. Novamente, fui convencer o rapaz do estabelecimento que não era justo cobrar uma diária inteira da gente já que não iríamos dormir lá. Não consegui. Também não estava com paciência, tão pouco com criatividade para inventar desculpas. Topamos pagar os bs. 80** para passarmos a tarde em um quarto com duas camas. Era uma pousada BEM modesta. Se fosse para ficar, certamente buscaríamos algo melhor. Para tomar banho e descansar bastava.

Moeda forte
Com banho tomado, saímos para, finalmente, “cambiar las nuestras monetas”. Logo depois, satisfazer outra necessidade básica que era comer. Foi a hora que percebi o tanto que deve ser bom ser europeu no Brasil. Mesmo sendo profissionais recém-formados com muita animação, mas pouco dinheiro no bolso, conseguimos fazer refeições em chiques cafés da cidade, que servem as classes média e alta. Que bom nosso dinheiro valer tanto por aqui. No almoço, conversamos sobre a grande novidade, que era resolver todos os nossos problemas falando outra língua, no caso español. Já em Santa Cruz, notamos a diferença na comida. Nada de arroz e feijão no cardápio. Nos contentamos com sanduíches, omeletes e outros pratos. No final, como se pede a conta, seu garçom? Ficamos um olhando a cara do outro sem saber o que dizer. Vendo a nossa dúvida, ele perguntou: "La cuenta?". "Sí, gracias (a DIOS)!".

À tarde, nos dividimos em dois grupos. Como eu tinha que ir ao banco (isto mesmo, até na Bolívia) para depositar a grana da reserva do passeio do Salar de Uyuni, e como eu vi que seria perda de tempo convencer as meninas a irem comigo, pedi ao Rodrigo para se juntar a esta missão inglória. Era essa a sensação exata de passar dezenas de minutos na fila do banco enquanto havia uma cidade inteira para conhecer. Esperamos muito, mas o depósito foi feito imediatamente. O que me chamou a atenção era um aviso em uma das pilastras do prédio: "Zona segura em caso de terremoto". Algo difícil de se ver no Brasil.

Omelete em um café de Santa Cruz: moeda valorizada
Perdemos mais um tempo em uma Lan House, já que precisávamos scanear o comprovante e mandá-lo via e-mail para a agência de turismo de Uyuni. Depois, separamos alguns minutos para tirar fotos, principalmente da maravilhosa catedral. Tudo feito, era a hora de nos preparar para voltar à estação. Naquela noite, viajaríamos até Cochabamba, famosa cidade boliviana que atrai alunos universitários de toda a América Latina. Decidimos não enrolar e ir de uma vez à estação, onde tentaríamos arrumar uma companhia de ônibus descente e ficaríamos por lá até o embarque.

Ao entardecer, pegamos novamente um táxi de volta à estação. Desta vez, conseguimos negociar um preço menor (viva! rs). No decorrer da jornada, perceberíamos que a regra estava certa mesmo - é fundamental pechinchar e o que ocorreu na estação após a nossa chegada havia sido pura falta de sorte. Eu, que ia sempre na frente ao lado do taxista por causa do meu tamanho, passei a puxar papo com os motoristas. Este era um cara muito simpático. Natural de Cochabamba, nos alertou para os efeitos do mal da altitude, o famoso “soroche”.

Só a título de informação, apesar do nome, Santa Cruz de la Sierra fica na planície do Pantanal (mesmo que já não seja mais Pantanal de fato), a pouco mais de 300 metros acima do nível do mar. Para chegar a Cochabamba, é necessário subir a primeira parte da Cordilheira dos Andes. A cidade fica a 2.400 metros de altitude. Para se ter uma ideia, Campos do Jordão (SP), a cidade mais alta do Brasil, fica bem mais abaixo, cerca de 1.600 metros do nível do mar.

No meio da conversa, o taxista nos disse que gostava muito de música brasileira. "É mesmo, mas qual tipo?", perguntei. Ele pegou uma fita e enfiou no rádio. Aumentou o som e, para a nossa surpresa, começou a tocar uma música do goiano Amado Batista. Sem explicação.

Insegurança
Já na estação, começamos a pesquisar empresas de ônibus. A informação que eu tinha é que, nesta hora, muitos bolivianos viriam atrás de nós insistentemente oferecer os serviços de sua companhia. Não foi o que ocorreu. Muitos gritavam os destinos pelos corredores da estação, mas ficavam na deles. Assim, pudemos escolher com tranquilidade. O que não adiantou muito, já que não conhecíamos nenhuma empresa por nome. Todas pareciam do mesmo nível. Fechamos com uma que parecia boa, pelo menos segundo as fotos.

A estação de Santa Cruz é uma verdadeira lástima. Muito movimentada, não há nada para fazer até o embarque. Até aí tudo bem. Infelizmente, porém, também é bem insegura. Enquanto estávamos escolhendo a empresa, duas de nossas colegas foram abordadas por homens que se diziam policiais. Lembrando que na Bolívia é muito comum que falsos policiais parem turistas para pedir o passaporte. Após isso, eles os levam até uma sala onde exigiam uma boa quantia em dinheiro em troca da devolução do passaporte. Por sorte, uma delas disse que estavam em um grupo com mais três pessoas e os pilantras logo desistiram.

Subimos e ficamos tranquilamente em uma lanchonete até se aproximar a hora do embarque. Estava ansioso. Primeiro, porque havia ouvido que os ônibus na Bolívia atrasam muito, são de péssima qualidade, não param em um lugar certo na rodoviária e vendem mais de uma passagem para uma mesma poltrona. Como era a nossa primeira viagem de ônibus no país, queria entrar logo no veículo para checar item por item.
Catedral basílica de San Lorenzo no centro de Santa Cruz

Descemos e entramos na área de embarque para encararmos o horror. Havia uma calçada bem estreita para um grande número de pessoas que circulavam naquele local. Vários bolivianos estavam esparramados pelo chão, comendo comida de rua e conversando uns com outros. A insegurança começou a bater. Então, cada um de nós mirou para um lado deixando que nossas mochilas ficassem todas viradas umas para outras, formando uma cruz. Estratégia para não sermos surpreendidos.

Demoramos um pouco ali. Não porque o ônibus estava atrasado, mas porque realmente havíamos chegado mais cedo. Estava preocupado em não perder o ônibus. No bilhete não havia a indicação da plataforma, mas o atendente que nos vendeu indicou uma delas como o local onde paravam os ônibus da companhia. Detalhe: Para economia de papel, o nosso bilhete era apenas um, indicando que havíamos comprado cinco poltronas.

Também pensava se o ônibus seria mesmo um bus-cama de dois andares, que o rapaz da empresa havia garantido para nós. Só via ônibus velhos em toda a grande extensão da estação. No horário certo, um grande ônibus apontou na plataforma indicada. Esperou um pouco, até que outro da mesma empresa deixasse o lugar, e assumiu o posto. Era o nosso. E de dois andares. A primeira vez que viajaria em um destes. Eram os últimos lugares do segundo andar. Foi só agradecer a DEUS por dar tudo certo. Cochambamba, aí vamos nós.

Mapa do Caminho - Dia 4

Data: 06/06/2007
Saída: Santa Cruz de la Sierra, Bolívia
Chegada: Cochabamba, Bolívia
Distância percorrida no dia: 552 km
Empresa de ônibus: Renacer
Duração da viagem: +- 11h
Tarifa: Bs.60 (+- R$ 17,15 na época)**

* Texto originalmente publicado em junho/2008 e revisado antes da atual postagem

** Preço de 2007

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