quarta-feira, 19 de abril de 2017

Na fronteira (Bolívia/Peru em 2007, parte 3)

Não há como falar da viagem de Goiânia a Campo Grande sem contar que fomos ao lado de um grupo de pagodeiros nordestinos, que iam fazer um show em Dourados (MS). Aliás esta é uma característica da linha Brasília - Assunção. Por ser muito longa, acaba atraindo passageiros com destinos e propósitos completamente diferentes.

Se você for para Campo Grande, minha sugestão é que não pegue este ônibus, mas sim a linha direta entre Goiânia e Campo Grande, da Expresso São Luiz. Já viajei neste também, e é mais sossegado. A turma do pagode não foi um problema tão grande, mas acabou estorvando um pouco, principalmente de manhã. Quando a viagem passou das dez horas, as intermináveis conversas entre os membros e o vai e vem entre as poltronas do ônibus fizeram com que eu desejasse chegar a capital sul-matogrossense o mais rápido possível.

Vale lembrar que o grupo ocupou grande parte das poltronas e entupiu o bagageiro inferior (um dos motivos do nosso atraso, em Goiânia). Como se não fosse o bastante, alguns integrantes falavam por meio de ecos. Não ficavam feliz em chamar uma pessoa pelo nome, como, por exemplo: "Ei, Vladimir!". O faziam desta maneira: "Ei, Vladimir-ir-ir-ir". Mas também ganharam um ponto extra comigo por terem se comportado bem durante a noite.

Rio Paraguai e as chalanas em Corumbá, considerada a capital do Pantanal


Chegamos a Campo Grande por volta das oito da manhã. Como nosso próximo ônibus sairia apenas às 10:30, resolvemos procurar algum lugar para tomar café da manhã. Foi então que tive a primeira noção de quão pesada estava a minha mochila. Engraçado que quando vemos fotos de mochileiros carregando suas mochilas, não pensamos o tanto que é desagradável carregá-la cheia de coisas. Colocamos a dita cuja nas cotas (suspiro) e deixamos a rodoviária.

Para quem não conhece Campo Grande, é bom explicar que a sua rodoviária parou no tempo**. É resultado de um projeto velho de rodoviárias, onde os ônibus se movimentam embaixo (tipo um sub-solo, mas com saída para as ruas), enquanto que os guichês ficam na parte de cima. Soma-se ainda ao precário estado de conservação que o prédio se encontra, multiplicado pelo fato de que não há nenhuma lanchonete ou restaurante com o mínimo de condições para se tomar um bom lanche.

Desta forma, fomos procurar algum lugar decente nos arredores. Encontramos uma boa padaria, não muito longe dali. O problema foi carregar a bagagem. Era o primeiro dia, e os meus músculos ainda não estavam acostumados com o esforço. Além disto, andamos mais que o dobro do necessário, perguntando daqui, procurando dali. Após alguns salgados na barriga, voltamos.

Quando chegamos novamente na rodoviária, já eram dez horas. O nosso ônibus esperava na plataforma. Que bom! Corri em sua direção, não vendo a hora de despachar a mochila – carregá-la naquele momento era apenas o primeiro sofrimento de muitos. Entramos, e ficamos esperando a partida, rumo aos últimos quilômetros de Brasil.

Foi muito bom me deparar com um ônibus mais novinho e limpinho do que o da Nacional Expresso. Aliás, tenho um pouco de birra com esta empresa. Pela sua grandeza, deveria ser bem melhor. A minha opinião foi justificada no Peru, mas esta é outra história que conto nos próximos capítulos.

À medida que deixávamos Campo Grande para trás, o Pantanal começava a mostrar a sua cara. Não foi um dia muito feliz para ver animais pela janela do ônibus, mas deu para observar alguns tucanos e outros tuiuiús. Fora isto, a estrada de Campo Grande a Corumbá causa ansiedade. Não há grandes cidades e a distância de uma para outra é muito grande. Paramos em Miranda, pra lá das duas da tarde, para almoçar.

Placa em Corumbá indicando a fronteira com a Bolívia
Foi a primeira (e última) vez que minha mãe me ligou (porque o telefone não pegou mais depois da fronteira). Queria saber se eu já havia chegado a Corumbá. Estávamos na metade do caminho ainda. A sua previsão, porém, não era absurda. Isto porque o planejado era pegar o ônibus mais cedo em Campo Grande, mas o atraso do primeiro trecho nos impediu. E mais um atraso no segundo trecho fez com que chegássemos à fronteira já no cair da noite.

Só para constar, toda vez que estou chegando a Corumbá me impressiono com algumas montanhas que há ao lado da estrada, a poucas dezenas de quilômetros da cidade. Para mim, formam um cenário muito bonito. Descemos do ônibus e o clima de Bolívia já começou a dominar o ambiente. Vários “operadores turísticos” nos abordaram perguntando se iríamos pegar o famoso Trem da Morte até Santa Cruz de la Sierra. É claro que o tamanho das nossas mochilas entregava que éramos turistas, e isto fez com que a insistência crescesse. Não dei moral para nenhum deles e distribuí vários: "Não, obrigado!".

Só que ao chegar ao albergue, não pudemos mais disfarçar. Precisávamos das passagens para a cidade boliviana e, naquele momento, tínhamos duas opções - ou esperávamos até o dia seguinte para ir a Puerto Quijarro (cidade fronteiriça, de onde saem os trens) e comprá-las, ou íamos atrás dos “agentes”. Dois fatos acabaram pesando na nossa decisão em optar pelo segundo caminho - se deixássemos para o dia seguinte havia a possibilidade de não sobrar mais nenhum bilhete e isto seria fatal para o nosso planejamento, já que perderíamos um dia inteiro na fronteira e, certamente, não chegaríamos a Uyuni a tempo do nosso passeio (já reservado) no Salar. Além disto a recepcionista do albergue nos garantiu que indicaria uma pessoa de confiança para realizar a venda.

Fomos até a “agência de turismo”, uma salinha que não cabia mais do que quatro pessoas. Lá encontramos o Alberto (nome fictício) que tirou cópia de nossos passaportes e cobrou R$ 50,00 por cada passagem. Como éramos um grupo grande, ficou de nos arrumar um meio de transporte até a fronteira de fato (uns 5 km de Corumbá). Enquanto fazia as cópias, começou a nos contar histórias do caminho que íamos fazer. Nos recomendou cautela: "Cuidado com os bolivianos que oferecem serviços". E eu lhe disse: "Não dou bola, digo 'não', viro a cara e sigo o meu caminho". E ele emendou: "Que nem você fez comigo lá na rodoviária, né?". Foi daí que me lembrei que tinha passado por Alberto na nossa chegada à cidade e aprendi a primeira das muitas lições desta jornada - em Corumbá, turista nenhum passa despercebido.

Mapa do Caminho - Dia 2

Data: 04/06/2007
Saída: Campo Grande (MS), Brasil
Chegada: Corumbá (MS), Brasil
Distância percorrida no dia: 435 km
Empresa de ônibus: Viação Andorinha
Duração da viagem: +- 6h30
Tarifa: R$ 64,00***

* Texto originalmente publicado em junho/2008 e revisado antes da atual postagem

** Nota de 2017: Campo Grande hoje tem uma nova rodoviária. Não a conheço, mas parece BEM melhor do que a anterior

*** Preço de 2007

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