O lado negativo da nossa passagem por Corumbá foi não ter conseguido apresentar aos meus colegas o famoso “Pintado à Urucum”, prato muito famoso no Pantanal e extremamente saboroso. No nosso quarto coletivo (não havia quartos privados no albergue), havia apenas um rapaz hospedado - um português-californiano. Estranho não? Foi o que eu pensei quando ele começou a falar o português… eu não consegui me decidir se eu deixava ele continuar ou pedia para ele prosseguir em inglês.
De família portuguesa, o nosso companheiro de quarto tinha uma empresa de importação nos Estados Unidos. Ele importava iguarias - tal como azeite, olivas e etc… - de uma empresa que sua família administrava em Portugal. Parecia ganhar bem. Estava desfrutando de umas férias de seis meses pela América do Sul. O interessante foi a sua cara quando apresentamos o nosso roteiro e informamos que iríamos percorrer toda aquela distância em apenas 24 dias. "Um pouco apertado, não?", perguntou. A vontade era responder: "É porque existe uma coisa que se chama trabalho e que nós precisamos voltar a praticá-lo no início do mês que vem". Enfim, fiquei na vontade.
| No Zona Franca de Puerto Quijarro, cidade fronteiriça a Corumbá (MS) |
Dei a idéia a todos de irmos até a Bolívia pela manhã. Em Puerto Quijarro, há uma Zona Franca (um pequeno shopping), onde se vende produtos interessantes (importados e locais) por preço geralmente reduzido. E nós precisávamos nos preparar para as 16 horas de viagem no Trem da Morte até a cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra. Com quatro de nós optando pela visita à fronteira (a Lorena preferiu ir tirar fotos no porto), partimos rumo à praça principal para tomarmos o ônibus para a alfândega.
Como demorou este ônibus! Lembrei do transporte coletivo de Goiânia, os incontáveis problemas e a falta de vontade de resolvê-los, tanto pelo poder público como pelas empresas que monopolizam o sistema. A cada minuto que passava, a minha ansiedade aumentava, já que o trem sairia às 16:30 e até lá tínhamos ainda muitas coisas para fazer. Depois de mais meia hora de espera, um ônibus anunciando "Fronteira" parou em nosso ponto e várias pessoas entraram.
Puerto Quijarro
A viagem foi rápida. Em no máximo 15 minutos estávamos diante da ponte que demarca oficialmente a divisão política entre Brasil e Bolívia. Era o primeiro marco na nossa viagem. Enquanto eu pensava nisto, notei que um grupo de três meninas bolivianas desembarcaram junto com a gente e caminhavam rumo a Bolívia. Todas estavam muito bem trajadas, com um impecável uniforme escolar. Os livros embaixo dos braços não deixavam dúvidas - estavam vindo da escola. Detalhe: as três moravam na Bolívia e estudavam em uma escola brasileira. Cruzavam aquela fronteira todos os dias. Foi o suficiente para conter minha empolgação (rs).
A rotina das graciosas gurias pode até passar a impressão de que a fronteira é um lugar tranquilo, mas, acreditem, não é. Por ali todo o cuidado é pouco, principalmente para quem está levando quantias consideráveis em dinheiro. Contudo, também não é necessário se preparar para um campo de batalha. É só agir para não se destacar da multidão, evitando assim que alguém possa ver você como uma boa vítima de saque.
Já em solo boliviano pegamos um táxi. Um carro velho, dirigido por um rapaz com feições tipicamente bolivianas. Por dentro havia badulaques de todas as espécies, presos nos mais diversos lugares. A felicidade imperava na cara do taxista. Ele nos explicou que naquele dia, nem um antes, nem um depois, naquele MESMO DIA QUE ESTÁVAMOS PASSANDO POR LÁ, o presidente da Bolívia, Evo Morales, iria visitar a região. Visivelmente era o evento do ano na cidade, já que durante todo o caminho, o motorista buzinava para moradores que estavam nas ruas e balançava uma bandeira em apoio ao presidente. Era perceptível que Morales era querido por lá, pelo menos pela maioria.
Andamos por toda a Zona Franca (que não é tão grande assim), comemos uma comida muito boa em um restaurante por quilo. Dias depois ninguém me tiraria da cabeça que esta cozinheira era brasileira. Na volta pegamos mais um táxi boliviano, que nos levou de volta até a fronteira (eles possuem um acordo com os taxistas brasileiros - não trabalham no Brasil e os brasileiros não fazem corridas na Bolívia). Desta forma, cruzamos a ponte a pé e pegamos um outro táxi, já em solo brasileiro. É claro, todas estas corridas tiveram antes uma grande sessão de negociação para fechar um preço fixo. Vale lembrar que o preço boliviano é MUITO menor do que o brasileiro.
| Dentro do táxi boliviano: badulaques (Foto: Marina Mercante) |
Chegamos ao albergue. Pronto. A partir daqui foi uma correria tão grande que se for contar todos os detalhes, pode apostar que vou amanhecer escrevendo. Então, vamos resumir. Na portaria, ficamos sabendo que o rapaz de quem compramos as passagens ainda não as havia deixado no albergue, conforme combinado. Tudo bem, precisávamos ir no centro e passar no banco, antes de arrumar as coisas e partir para a fronteira novamente. Nosso medo era atrasar na imigração boliviana, onde teríamos que carimbar os passaportes.
Partida
Demorou um pouco, mas o Alberto chegou com as nossas passagens em mãos. Tudo certo (graças a DEUS, novamente), exceto que ainda precisávamos do nosso transporte para a fronteira, que havia sido prometido a nós na hora da compra. Enquanto isto, terminamos de arrumar as malas e partimos para o centro. Na volta, uma caminhonete velha, acoplada em uma carreta-leva-turista (daquelas que possuem bancos para que os turistas possam fazer city tour sentindo o vento no rosto), estava estacionada na porta. Quando vi, não acreditei que iriam nos levar naquilo. Mas, de qualquer forma, tinham cumprido o combinado, então não reclamei. O que eu mais queria era embarcar rápido no trem e relaxar depois de toda a correria.
Subimos todos com as nossas respectivas mochilas e o jeito foi aguentar a vergonha da exposição. Para piorar, quando chegamos na estrada, uma operação tapa-buracos estava atrasando o trânsito que seguia sentido à fronteira. Pra quê? Nesta hora, o motorista do caminhão (“terceirizado”) começou xingar aos cotovelos, falou que estava atrasado e nos ameaçou deixar no meio do caminho. Ainda bem que o Alberto estava com a gente e acalmou o homem. Para relaxar, o motorista colocou uma música velha dos anos 70 (não me lembro qual, mas era famosa). Foi o suficiente para que duas de nossas companheiras começassem a dançar, mesmo que timidamente, na carreta aberta. Pararam logo que foram saudadas pelo pessoal que fazia a obra na estrada.
Chegamos na imigração. Tudo certo? Que nada, mais problemas. Por causa da visita de Evo Morales, a imigração não abriu no período da tarde. A situação nos deixou em um dilema - ou esperávamos para ver se alguém viria nos acudir, ou então entrávamos ilegal na Bolívia. Com todo o respeito que a Bolívia merece, não me agradava esta segunda possibilidade. Contudo, estava disposto a colocá-la em prática, principalmente porque todos os bolivianos ao redor da imigração nos dizia que não teria problema algum. "Vocês carimbam quando chegarem em Santa Cruz. Expliquem que o presidente estava aqui, não vão fazer nada", falou um boliviano com quem conversei uns vinte minutos, esperando alguma ação das autoridades de fronteira.
| Grupo de bolivianos na fronteira (Foto: Marina Mercante) |
Corrida
A partir daí, a correria aumentou. Isto porque tínhamos que preencher uma ficha longa antes do policial bater o carimbo. Tanto nós (que iríamos pegar o trem), quanto eles (que queriam ver o Evo) estávamos loucos para sair dali. Na correria, esqueci uma sacola com a comida que havia comprado na Zona Franca para a viagem, mas só iria notar mais tarde. Certamente serviu de lanche para as autoridades bolivianas no dia seguinte. Combinamos dividir o táxi até a estação com duas gringas e, desta forma, pegamos dois carros. Quanto já estava prestes a escalar as escadas da estação (e realizar um sonho antigo de embarcar no Trem da Morte), eis que surge uma voz pedindo ajuda.
Me virei e vi a Lorena discutindo com um dos taxistas. Não vou entrar no mérito, mas notei que um não entendia o outro e que tudo não passava de um mal entendido. Contudo, os dois não paravam com a troca de palavras acusatórias. Foi quando o motorista levantou a mão como se fosse dar um tapa na nossa amiga. Parou no ar, pois um amigo boliviano que acompanhava a cena segurou o seu braço, colocando em prática o “deixa disso”. Sorte nossa.
Novamente me coloco em posição, e começo a subir as escadas. Nos últimos degraus levo um tropeção e quase caio de boca no chão. Penso: "DEUS, quem poderia imaginar que seria tão conturbado assim?". Mas ainda era pouco. Chegando na porta de embarque (uns 5 minutos para a partida), é claro que teria que acontecer mais um problema.
Não sabíamos, mas a taxa de embarque não estava inclusa na passagem. O preço era de dois bolivianos por pessoa. Com toda aquela confusão, não havíamos feito câmbio como tínhamos planejado ao sair do albergue. Não titubeei. Vi que o total daria dez bolivianos e entreguei (não sem aperto no coração) a minha nota de estimação, de exatamente dez bolivianos, que havia trocado uma outra vez que havia estado por aquelas bandas. Mais tarde iríamos descobrir que a falta de dinheiro boliviano nos renderia uma noite sem comida no trem. Foi nesta hora que percebi que a sacola com as minhas provisões já não estava mais em minhas mãos.
Mapa do Caminho - Dia 3
Data: 05/06/2007
Saída: Corumbá (MS), Brasil
Chegada: Santa Cruz de la Sierra, Bolívia - no dia sequinte
Distância percorrida no dia: 662 km
Empresa de trem: Ferroviaria Oriental
Duração da viagem: +- 16h
Tarifa: R$ 50,00**
* Texto originalmente publicado em junho/2008 e revisado antes da atual postagem
** Preço de 2007
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