segunda-feira, 8 de maio de 2017

Sal por todos os lados (Bolívia/Peru em 2007, parte 8)

No caminho para Uyuni, uma coisa me preocupava. Apesar de ter feito o depósito em Santa Cruz para a reserva do passeio do salar – há alguns dias -, a agência ainda não me havia confirmado o sucesso da operação. E não foi por falta de pedido. Já havia enviado uns dois ou três e-mails para que eles me confirmassem o depósito, mas não recebi resposta alguma.

Em Oruro, pouco antes do embarque, resolvi agir. Peguei o número de telefone deles e decidi ligar para ver o que ocorrera, até mesmo para me tranquilizar. Tinha evitado isto até o momento por causa da língua. Falar cara a cara com uma pessoa em uma língua estrangeira é uma coisa, por telefone é outra. A experiência que tive só viria a confirmar esta máxima.

A primeira tentativa foi engano, o número estava errado. Depois, consegui outro número e quem atendeu foi uma criança. Eu não a entendia e creio que ela muito menos. Depois disso, minha auto-estima foi lá para baixo. Pedi ao Rodrigo para fazer uma nova tentativa. Apesar de ele ter ficado um pouco desconfiado, ligou. Por fim, o número era de um hotel, não tinha nada a ver com a agência. Desistimos.

Placa indica a estação de trem de Uyuni e a sua elevação: 3600 metros

Todo mundo conhece algum lugar ao qual rotula de “fim de mundo”. Tenho certeza que você, neste momento, pensou em uma cidade, fazenda, rio ou qualquer outro lugar a que se refere como tal. Para mim o “fim de mundo” é Uyuni – não por ser ruim, mas por ficar em um lugar muito inacessível e demorar horas para chegar.

Desembarcamos do trem aproximadamente 10h30 da noite. Foi a noite mais fria que eu já experimentei em toda a minha vida. Neste momento, ainda dava para ficar de fora das cobertas, mas percebi que, durante a madrugada, não seria nada agradável não ter onde se encolher.

Hotel
Estávamos todos cansados e sem paciência. A viagem foi de sete horas, mas parecia ter durado umas 19. Como em todas as outras cidades, a exceção de Cuzco, não tínhamos hotel reservado. Saímos pela rua, atravessamos a praça e entramos no primeiro hotel que apareceu. Junto conosco havia umas duas dezenas de pessoas que desembarcaram do trem e que também procuravam hotel. Não poderíamos demorar.
Um senhor de idade nos atendeu e ofereceu dois quartos, um duplo e outro triplo. Depois de pensar um pouco, duas de nossas colegas preferiram procurar um pouco mais, então ficamos apenas com o quarto triplo. Necessitávamos urgentemente de um banho, já que a poeira coletada na viagem havia deixado algumas marcas. Contudo o frio era intenso e o chuveiro não era aquecido a gás, como foi em todos os outros albergues ou hotéis que ficamos. O jeito foi ligá-lo na potência máxima e esperar o vapor dominar o banheiro. De banho tomado, sobrou apenas “desmaiar” na cama.

Como precisávamos checar a nossa situação na agência de turismo o quanto antes, colocamos o relógio para despertar bem cedo, logo nos primeiros minutos após as 7h. Quando o alarme tocou, foi uma dificuldade imensa sair debaixo das cobertas. Como eram finos, o hotel nos disponibilizou uns seis ou sete cobertores para cada um. A gente deitava na cama e aquele monte de cobertas parecia nos esmagar. No frio intenso, porém, aquela situação era muito confortável. Reuni coragem suficiente para levantar, não consegui aguentar o frio e voltei para baixo da montanha aquecida. É claro, não iria ficar ali o dia inteiro, então bolei um plano. Levantar rápido, trocar de roupa e voltar. E assim fiz. Só que no meio do processo precisei ficar pulando para amenizar os desconfortos da baixa temperatura.

Não havia café da manhã no hotel, então o plano era tomar o rumo da rua para localizar a tal agência. Descemos e demos de cara com a porta do hotel trancada, sem ninguém na recepção. Ficamos uns 15 minutos sem ação, nos perguntando o que faríamos. Em seguida, o mesmo senhor que nos atendeu um dia antes, apareceu enrolado em vários casacos. “Es muy temprano (é muito cedo)”, disse ele com um sorriso prensado na cara.

Linha férrea próximo à cidade de Uyuni: muita areia e poeira
Enquanto nós explicávamos que era necessário sair cedo para verificar se o nosso passeio estava realmente marcado, o boliviano acendeu a calefação e tomou posto atrás do balcão. “Vocês não vão encontrar nada aberto agora. Aqui tudo só começa a funcionar depois das nove. O passeio de vocês só deverá sair depois das dez e meia da manhã”, informou. Olhamos um para a cara do outro e lamentamos o sono perdido. Não havia, porém, nada que fazer. Já de pé, tínhamos que resolver a vida.

Ficamos uns trinta minutos conversando com o senhor do hotel. Ele nos contou que já havia morado em São Paulo e que, para ele, “brasileiro gosta de acordar cedo”. “Aqui não, ninguém acorda cedo por causa do frio”, contou. Por volta das oito, deixamos o hotel e fomos procurar a agência.

A cidade
Uyuni é muito pequena. Resume-se a três ou quatro ruas acima e abaixo da praça. Durante a noite, só há iluminação pública na praça e nos arredores próximos. O resto fica no escuro. Uma das características é a poeira solta pelas ruas. A estação de trem era bem próxima à praça, ao lado de uma avenida. Aliás, a cidade nasceu fruto da companhia de trem, que liga o coração da Bolívia ao Chile e Argentina, passando por uma região mineradora. Hoje, porém, o turismo é um dos principais filões da economia.

Depois de encontrar a agência fechada, claro, fomos à praça e reunimos o grupo completo, com as colegas que não ficaram no nosso hotel. Resolvemos ir à estação e comprar a passagem de volta a Oruro, no trem que partia a meia-noite daquele mesmo dia. Havia a possibilidade de voltar de ônibus, mas temíamos ser pior que a ida, já que grande parte do percurso era de terra.

Havia poucas pessoas na estação e o guichê já estava aberto, mas não sobrara passagem na mesma classe em que viemos. Assim, optamos por pagar quase o dobro (que em reais não era tanto assim), para irmos de primeira classe. O grande problema é que este era o único trem e o próximo só passaria por Uyuni dois dias depois. A falta de opção de datas deste trecho foi o grande empecilho do planejamento de toda a viagem e de certa forma explica a correria da primeira parte da jornada, já que se perdêssemos o trem de ida, ou de volta, significaria perder de dois a três dias e dar adeus a alguns passeios.

Saindo da estação, procuramos um bom lugar para tomar café da manhã. Logo à frente, havia um restaurante movimentado que parecia servir algo apetitoso. Não pensamos duas vezes. E não é que a aposta deu certo? Sem dúvida o melhor café da manhã que tomamos em toda a viagem. Normalmente, um “desayuno” boliviano contém leite, chá, ou mate de coca, pães (tipo pão sírio, mas mais gordinho e com um gosto único) e outras coisas que variam. Mais uma vez, lembro que o café-da-manhã boliviano não chega aos pés do brasileiro. Pelo menos ao meu gosto.

Estávamos carregando as mochilas, já que havíamos fechado a conta no hotel. Voltamos à agência e, desta vez, já estava aberta. Para nosso alívio, não precisamos nem perguntar nada. Assim que cruzamos a porta, uma mulher que estava sentada atrás de uma mesa se antecipou: “Vocês são o grupo de brasileiros?”. Era tudo o que queria ouvir. Eles foram tão tranquilos que, até mesmo, se esqueceram de cobrar o restante. Eu já estava dentro da caminhonete, quando alguém veio perguntar: “Vocês não tem um débito para acertar?”. Eu até tinha lembrado antes, mas preferi que eles tomassem a iniciativa de cobrar, afinal ainda iríamos voltar e podíamos pagar depois.

Sala do Hotel de Sal, segunda parada do tour no Salar de Uyuni
Salar
Ah, já adiantei que o nosso transporte era uma caminhonete. Por aquele mar de sal e areia que iríamos enfrentar, só um veículo 4X4. A primeira parada foi no famoso cemitério de trens. Estranho né? Lá o ferro velho de antigas máquinas locomotivas virou atração turística. Fica a céu aberto, às margens dos trilhos.

Nosso guia era um senhor que aparentava uns cinqüenta anos. O Juan (nome fictício) era extremamente simpático e um guia muito bom. Não se cansava de contar suas histórias e dava as explicações de forma muito competente. Como o nosso grupo era privado (apenas nós cinco), tínhamos ele inteiramente à nossa disposição para tirar todas as nossas dúvidas do passeio, de Uyuni e da Bolívia.

Neste momento o frio já tinha ido embora e o céu estava bem azul. O sol cobria nossas cabeças. Quando estávamos expostos aos seus raios, sentíamos um calor seco, que dava vontade de tirar todos os casacos. Já na sombra era o inverso, o frio atacava de uma forma surpreendente. De dia, percebemos o tão desértico que eram os arredores de Uyuni, com muita terra e areia. A paisagem era bem plana, com algumas montanhas pontuais. O horizonte era o limite do olhar.

Assim que aproximamos do Salar de Uyuni, tudo mudou. O marrom da terra e o amarelo da areia deram espaço, subitamente, para o branco do sal. A primeira parada foi em Colchani, cidade próxima que abriga a entrada oficial do salar. Lá também existe um pequeno campo de extração de sal, administrado por uma cooperativa, e o famoso Hotel de Sal. Paramos um pouco para podermos explorar de perto estes interessantes pontos do salar.

Para quem não sabe, o Salar de Uyuni é um deserto de sal no meio dos Andes. É o maior salar do mundo, com dimensões gigantescas. Para ser ter noção, estar no salar de Uyuni é ter os horizontes livres para enxergar até o limite, tudo branco, em 360 graus. Há algumas montanhas dentro do salar que, diferentemente, não são de sal. São chamadas de ilhas e possui características únicas.

O salar de Uyuni tem uma explicação científica e uma mitológica. Há muitos e muitos milhões de anos atrás, duas placas tectônicas se chocaram e formaram a Cordilheira dos Andes. Como naquela região era mar, vários lagos se formaram em cima da cordilheira. Com o passar do tempo alguns dos lagos secaram e restou apenas o sal. Já a mitológica eu vou ficar devendo, pois confesso que já esqueci. Só lembro que é uma história bonitinha que o Juan contou para nós.

Inca Huasi
Depois do hotel, entramos de fato no salar e viajamos um tempo até a Isla Inca Huasi. Achei muito legal esta ilha. Ela não é grande, mas dá para fazer uma trilha até o topo e ver um panorama amplo do salar. Em todo o caminho, cactos gigantes, próprios da região, chamavam a atenção das pessoas. Antes de subirmos, paramos para o almoço no pé da ilha. A refeição já estava incluída no pacote e, mesmo assim, foi muito boa. Pela primeira vez experimentamos a carne de llama, um mamífero camelídeo típico dos Andes.

Só depois do bucho cheio é que Juan veio falar da trilha, muito mais vertical do que horizontal. Ainda não estávamos sob o efeito do mal da altitude, mas mesmo assim era difícil subir. Contribuía também a má forma física. Fui indo devagarzinho, parando sempre que dava a impressão de estar morrendo de tanto ofegar. Contudo, valeu MUITO a pena – a vista é linda. Lá de cima, tive meu primeiro contato com a coca, mascando algumas folhas (veja bem, a planta, e não a droga).

Cactos e a vista para o salar no alto da ilha Inca Huasi
Seguimos para a última atração, a visita ao vulcão Tunupa, no limítrofe norte do salar. Vale lembrar que no Salar de Uyuni é essencial usar óculos escuros, já que o sol refletido no gelo cria uma claridade insuportável.

Quando eu vi o vulcão não acreditei. Eu estava só o trapo e ele era alto demais. Não iria conseguir subir tudo. Foi então que Juan avançou com a caminhonete e mostrou que nós não chegaríamos lá andando. Foi um alívio. Chegamos à base do Tunupa, quando desviamos para uma pequena trilha, rumo a uma tumba. Isso mesmo, fomos visitar umas múmias que antecedem tanto Colombo como os próprios incas. Por falar na famosa civilização, nesta ilha há muros de pedras que os incas construíram apenas equilibrando uma na outra. Ficaram tão firmes que até hoje estão em pé, suportando ventos e terremotos.

No caminho de volta para Uyuni, Juan parou no meio do salar, para a nossa felicidade. Além da sessão fotográfica, pudemos ver o tanto que o sal é duro. Juan explicou que há várias camadas de sal e, entre elas, existem lençóis de água. Todo o chão do salar é “desenhado” de grandes hexágonos, devido às reações químicas embaixo do sal. Além disto, o chão de sal é muito gelado. Já era tarde e, com o entardecer, começou voltar o frio. Juan nos contou que à noite, no salar, é costume fazer 15 graus negativos.

De volta
Voltamos todos em êxtase. A beleza da obra sem dúvidas compensou todo o sacrifício desde Goiânia. De volta à agência, seguimos para uma pizzaria recuperar nossos carboidratos. Ficamos lá umas três horas para aproveitar a calefação (já que não tínhamos mais hotel e o trem só sairia mais tarde). Eu e a Lucimeire, contudo, enjoamos de ficar ali e saímos para curtir o frio. Lá fora, encontramos um monte de meninos jogando futebol. Entramos timidamente no jogo, e eles nem se importaram. Queriam mais era chutar a bola. Impressionante o pique deles, a mais de 3.800 metros de altura.

Cansamos da pizzaria e seguimos para a estação com muito tempo ainda para matar até o embarque no trem de volta a Oruro. Lá encontramos uma mesa de pimbolim, ou totó, e não pensamos duas vezes - jogamos várias e várias partidas. Antes de embarcar ainda conversamos com um brasileiro muito estranho, que se dizia de Minas Gerais. Há quem disse que ele era português e que só queria enturmar.

O trem chegou para nosso alívio. Quando estava embarcando, porém, eis que aparece um problema. O funcionário não foi com a minha cara e disse que teria que despachar a minha mochila. Lembra-se que a gente não gostava de despachar nada, por não confiar nos transportes bolivianos? Pois bem, parece que teria problema com esta tática naquele momento.

Conversei alguns minutos com o tal funcionário. Tentava convencê-lo para ele me deixar entrar, quando o Rodrigo passou sem problemas com a mochila dele e o cara não disse nada. A cena foi o melhor argumento que poderia ter, pois questionei o porquê de ele poder e eu não. Não querendo muito papo, o funcionário virou e me disse: “Tudo bem, mas se ela (mochila) cair na tua cabeça não é culpa minha”. Tudo bem, quando entrei só tinha espaço para bagagem acima da cabeça dos outros passageiros mesmo.

A primeira classe era quase igual à outra em que viemos. A diferença era que tinha calefação (não sei se a outra também tinha, porque viajamos de dia), travesseiro, cobertor e nos deram alguns alfajores. Entre a distribuição dos itens, eu não aguentava e ia cochilando. Quando tudo estava certo, eu embarquei no décimo sono. Para mim a viagem foi instantânea. Pela primeira vez na vida, fechei os olhos no início e fui abri-los apenas no final, sete horas depois, em Oruro.

Mapa do Caminho - Dia 7

Data: 09/06/2007
Saída: Uyuni, Bolívia
Chegada: Oruro, Bolívia – no dia seguinte
Distância percorrida no dia: 353 km
Empresa de trem: FCA
Duração da viagem: +- 7h
Tarifa: Bs. 101 (+- R$ 28,45 à época)**

* Texto originalmente publicado em junho/2008 e revisado antes da atual postagem

** Preço de 2007

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