sexta-feira, 12 de maio de 2017

Na capital boliviana (Bolívia/Peru em 2007, parte 9)


À medida que a nossa jornada prosseguia, notei que podíamos dividi-la em três partes. A primeira foi a “corrida” de Goiânia até Uyuni, a fim de chegarmos na data certa de pegar o trem, fazer o passeio no salar e voltar para o centro da Bolívia sem que isto atrasasse o cronograma. Esta etapa se encerrou assim que tomamos o trem de volta a Oruro. A segunda compreendeu a visita ao altiplano dos Andes (La Paz e Lago Titicaca) até as ruínas de Machupicchu no Peru. Esta parte começou assim que abri os olhos e notei que havia dormido todo o tempo durante as sete horas de viagem entre Uyuni e Oruro.

Estava totalmente tonto de sono. Por mim, dormiria mais sete horas, tranqüilamente, dentro daquele trem. Desci sem muita noção de onde estava e, quando olhei ao redor, vi que não estava perdido sozinho. Todas as nossas caras, de todos os componentes do nosso grupo, diziam por si só que nenhum de nós deveria estar de pé naquele momento. Só que, obviamente, era obrigação. A nossa segunda passagem por Oruro seria bem rápida. Tomaríamos um táxi até a estação rodoviária (que saudades da estão bimodal de Santa Cruz, que já era um horror) onde pegaríamos um ônibus até La Paz, a capital dos bolivianos.

Na porta da estação ferroviária, taxistas se aglomeravam em busca de passageiros. Abordamos um deles e fizemos uma proposta. O rapaz negou contundentemente e cobrou um preço muito alto. Tal ação era algo raro entre os taxistas bolivianos, já que a maioria dava um sorrisinho sem graça e tentava negociar para não perder o cliente.

Centro de La Paz, capital da Bolívia: muitos ônibus e vans e trânsito caótico

Acho que foi por isto, e pelo nosso estado, que Rodrigo não deu papo para o taxista “mercenário” – assim que ele mostrou que não se moveria se não pagássemos a quantia que ele havia estipulado, o nosso amigo virou a cara de uma vez e saiu resmungando. E “o Eduardo meio tonto só pensava” em sair dali. Principalmente porque não via a hora de me escorar para dormir de novo.

O grande problema é que não podia fechar os olhos e torcer que tudo se resolvesse sozinho. Não podia fugir da responsabilidade de arrumar um táxi. Graças a DEUS, o segundo taxista fez a corrida por um preço camarada (não tão baixo como poderíamos conseguir se tivéssemos em sã consciência) e embarcamos.

Guia
O pouco que me lembro foi que, logo ao desembarcar, miramos para o primeiro guichê de companhia de ônibus que vimos. Lá eles informaram que havia um ônibus para La Paz que sairia em vinte minutos. Como o preço não era ruim (também poderíamos abaixá-lo, mas...) não demoramos a comprar as passagens. O ônibus já estava à espera, bem na nossa frente. Era velhinho, mas estava em ótimas condições. Despachamos a bagagem e entramos.

A viagem era curta, cerca de quatro horas. Quando o ônibus começou a rodar, tentei lutar contra o sono para poder acompanhar a viagem pelo altiplano, contudo não consegui. Mais uma vez adormeci. Acordei algumas vezes, mas só fui retomar verdadeiramente a consciência quando já estávamos perto da rodoviária da capital.

Uma das coisas que faz o nosso humor despencar lá para baixo é o sono mal dormido. Por melhor que seja uma noite de sono sentado em um trem, ou ônibus, sempre é uma noite ruim. Quando pisamos em La Paz pela primeira vez, nosso humor estava péssimo. O que está ruim, porém, pode ser ainda pior.

Logo na saída do ônibus, tentei economizar tempo tirando rapidamente meu lindo guia de mochileiros, novinho em folha, da minha mochila, mas ele saiu do controle de minhas mãos, quicou em meu braço e foi cair numa possa de óleo, com mais algumas coisas (cheirava a urina), logo ali na plataforma.

O meu mundo caiu. Pensei em gritar, chutar, dar na cara do primeiro ser humano que atravessasse o meu caminho. Poucos segundos depois, veio o desespero e a vontade de sumir dali em um estalar de dedos. Quando consegui controlar esse poço de emoções, tornei a mirar o livro na poça e lembrei que precisaria tomar uma decisão. Queria jogar o livro fora, e se estivesse sozinho era o que faria com certeza. Sorte que o Rodrigo estava ao meu lado e conseguiu me convencer de que não havia molhado muito, que poderia secar e nos ser útil mais à frente. (nota de 2017: enquanto reviso esse texto em uma madrugada goianiense, sentado confortavelmente em uma cadeira acolchoada, eis que viro o meu olhar para a estante acima do computador e vejo o guia na primeira posição da prateleira)

Desfile boliviano na porta do hotel (Foto: Marina Mercante)
Primeiras horas
Pegamos o táxi até o hotel pré-selecionado. Como parecia bom, fechamos a questão. Iríamos permanecer duas noites ali. É engraçado notar que quando se está na altitude, o fato do quarto se situar nos últimos andares é motivo de desvalorização, principalmente se o prédio não tem elevador.

O hotel o aluga pelo mesmo preço, claro, mas as pessoas tentam evitá-lo o máximo. O nosso era no segundo andar, e o das meninas era no terceiro. Parecia, porém, que o segundo ficava no décimo. Vale lembrar que a nossa “data de validade” na altitude já havia vencido e o nosso corpo já estava com problemas para a reposição de oxigênio. Assim, cada subida de escadas era um martírio.

Um detalhe importante - a altitude é traiçoeira. Quando se começa fazer esforço físico, parece que é a mesma coisa do que se estivesse no nível do mar. Sentindo que dá para aguentar mais, normalmente se aumenta a carga de esforço. O baque, porém, vem de uma vez e pode ser arrasador. Diversas vezes eu ia subir as escadas e começa a sentir uma fatiga mortal na metade dos degraus. Mesmo depois que já estava no andar, o corpo demorava muito para se recompor. Muitas vezes eu abria a porta do quarto, extremamente ofegante, e me jogava na cama, só voltando ao normal uns dez minutos depois.

Instalados, fomos atrás de um restaurante. Na saída do hotel, uma boa surpresa. Bem ali na nossa porta ocorria um desfile boliviano. Foi de hipnotizar as pessoas que passavam, até eu, que não gosto muito de paradas ou coisas do gênero. Pedimos informações e o atendente do hotel nos indicou um restaurante judeu na mesma rua, um pouco mais abaixo.

Foi naquele restaurante que percebemos o alto número de judeus que vivem (ou passam) em La Paz. Pelo que ouvi dizer, muitos vêm a turismo e acabam ficando, já que o custo de vida no país é muito barato. Ficam por lá uns seis meses, ou mais. O cardápio estava escrito em espanhol e hebreu. Pessoalmente achei o restaurante muito esquisito, e preferi não inventar. Pedi uma lasanha que não foi lá grande coisa.

Voltamos e tiramos a tarde para descansar. E quanto tempo nós não fazíamos isto! Antes, porém, descemos uma rua concorrente (uma enorme descida) onde havia várias lojas com produtos interessantes, desde o artesanato até os importados. Havia uma seqüência enorme de lojas esportivas, cheio de camisas de futebol dos mais diversos tipos. Na minha lista de compra estava a do The Strongest, time paceño (de La Paz), mas em todas as lojas que entrei havia apenas camisas “genéricas”. Eu queria a original.

Campanha contra a proibição de jogos de futebol na altitude
Durante a nossa exploração ao mercado, várias vans desciam a rua cheia de torcedores. Perguntei para um lojista e ele me informou que em cerca de uma hora haveria o clássico da cidade - La Paz X The Strongest. Bateu aquela vontade de ir acompanhar o futebol boliviano de perto. Principalmente porque as vans não paravam de descer, abarrotadas de gente. Convidei a Lucimeire (a única mais apegada ao futebol dentre nós), mas ela não se mostrou animada. Acho que se insistisse ela até iria, mas como notei que o que ela queria mesmo era continuar as compras, desisti. Eu também estava em dúvidas, porque ir ao jogo era perder um tempo precioso que tínhamos para conhecer a cidade.

Brasileiros
Voltamos ao hotel e procuramos dormir um pouco. Ao entardecer, as nossas colegas vieram nos chamar para nos apresentar a um grupo de brasileiros que elas haviam conhecido no saguão do nosso hotel. Eu e o Rodrigo, porém, preferimos o sono e dormimos até no início da noite. Mais tarde, quando já estávamos integrados com os nossos conterrâneos, resolvemos descer todos até a principal avenida da cidade para jantarmos. Um dos nossos novos colegas recomendou uma lanchonete que realmente era boa.

Na verdade, havia vários grupos de brasileiros que estavam naquele hotel. Éramos umas vinte pessoas no total. No caminho da lanchonete, descobri que um destes grupos tinha ido ao jogo à tarde. Foi quando eu percebi que estava com sorte, pois me contaram que o jogo havia sido uma verdadeira pelada e que terminou zero a zero. Menos mal.

A lanchonete era grande e a comida era boa. O problema é que pedi um sanduíche com molho barbecue que não me fez bem no dia seguinte. Mais tarde viria a saber que este episódio seria apenas o começo de um novo problema que me acompanharia o restante da jornada. A noite foi animada, com muitas conversas agradáveis. Com o bucho cheio, tivemos que subir de volta duas grandes ladeiras. Repetimos estas duas ladeiras várias e várias vezes até o final de nossa estada na cidade, já que o centro e todas as principais atrações de La Paz ficavam mais abaixo em relação à localização do nosso hotel.

Mapa do Caminho - Dia 8

Data: 10/06/2007
Saída: Oruro, Bolívia
Chegada: La Paz, Bolívia
Distância percorrida no dia: 220 km
Empresa de ônibus: Urus
Duração da viagem: +- 4h
Tarifa: Bs. 20 (+- R$ 5,65 à época)**

* Texto originalmente publicado em junho/2008 e revisado antes da atual postagem

** Preço de 2007

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