segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Aviso prévio de um 2020 bélico

A morte do comandante iraniano Qasem Soleimani por meio de um ataque americano com drones, na noite da sexta-feira (3), pôs o mundo de sobreaviso. Poucas vezes, nas últimas décadas, uma ação militar abriu um laço tão grande de possibilidades futuras e colocou tão fortemente em xeque a estabilidade regional do Oriente Médio e a busca pela paz mundial. A morte de um oficial-chave do Irã, fruto de ordem direta do presidente americano Donald Trump, coloca todos de prontidão sobre as temidas consequências.

Qasem Soleimani (E) com o aiatolá Khamenei: ataque coloca paz em xeque

Soleimani não era um chefe de célula terrorista como vários que o exército americano exterminou nos últimos anos – o mais famoso deles, o ataque ordenado pelo ex-presidente Barack Obama que matou o terrorista Osama Bin Laden em 2011 no Paquistão. Ele era o comandante da Força Quds, braço de inteligência e missões secretas da Guarda Revolucionária do Irã. Era considerado o grande estrategista militar de seu país, principalmente nas ações dentro do conturbado Oriente Médio.

Ele era uma pessoa carismática e querida no Irã. Participava ativamente das missões, estando inclusive muito próximo das áreas de conflito. Essa característica colocava Soleimani em uma posição de risco. Tanto que os ex-presidentes George W. Bush e Barack Obama tiveram a chance de ordenar ataques para matá-lo durante seus governos, mas não o fizeram. Consideraram que tal ação seria um duro golpe para a estabilidade regional.

Oficialmente, os Estados Unidos anunciaram que a operação que matou Qasem Soleimani foi um ataque preventivo, pois ele estaria planejando ofensivas contra alvos americanos e teria autorizado a recente hostilidade contra a embaixada americana em Bagdá. Porém, uma estratégia mais rebuscada pode estar por trás dessa ação. Sem Soleimani, o Irã perde o seu maior estrategista militar, homem de total confiança do aiatolá Ali Khamenei. Isso gera instabilidade interna no governo iraniano, que não contará mais com seus serviços e terá que achar um substituto em meio à crise.

E qual será a consequência deste ato? O Irã prometeu revanche e deverá fazê-lo. Inclusive, poderá já ter tomado alguma providência enquanto você estiver lendo este artigo, já que a política internacional é extremamente dinâmica. Analistas acreditam que, com a ofensiva, Trump entrou em um território totalmente sem previsão. De qualquer forma, são esperados ataques contra posições americanas no Oriente Médio, em países como Israel, Arábia Saudita, Bahrein, Qatar e Iraq.

Há sim riscos à paz em outras regiões do globo a médio e longo prazos. Vale lembrar que o Irã é um personagem extremamente importante para a geopolítica e um dos aliados estratégicos da Rússia. Mas, por enquanto, espera-se que as ações sejam focadas no Oriente Médio. No campo econômico, o ataque aumenta o preço do petróleo – que certamente deverá elevar o valor dos combustíveis no Brasil, de acordo com a política da Petrobrás – e fuga de capital dos mercados emergentes. Na presença de riscos, investidores preferem títulos seguros de países estáveis. E 2020, sem dúvida, começa incerto.


*Artigo publicado na edição de 04/01/2020 do jornal O Popular. Para acessar clique aqui (para assinantes)

Foto: Farsi Khamenei

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