terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Cruzando a fronteira andina (Bolívia/Peru em 2007, parte 14)

Enquanto arrumávamos nossas coisas, logo nos primeiros minutos da manhã, a tensão corria solta. Era visível na cara de cada um que logo estaríamos diante de mais um desafio nesta jornada. Desta vez, o que nos preocupava era a fronteira Bolívia-Peru, a 20 minutos de Copacabana. Mesmo parecendo uma coisa simples, cruzar aquela fronteira era sim uma situação de risco.

Com algumas informações coletadas ainda no Brasil, e outras colhidas no decorrer da viagem, percebemos que era realmente necessário um pouco de prudência. Isso porque, segundo vários relatos, existe um “esquema” de policiais de fronteira peruanos para “pegar-emprestado-para-sempre-sem-pedir” objetos e, até mesmo, dinheiro de turistas desavisados. 

Segundo o que ficamos sabendo, havia vários casos de turistas que, assim que cruzavam a fronteira para o Peru, eram abordados por policiais e encaminhados a uma delegacia ali mesmo. Seguia-se, então, uma sessão de interrogatório, onde toda a bagagem da pessoa era aberta e revistada. Depois de algum tempo a pessoa em questão era liberada, mas, quando ela checasse a sua bagagem, notaria falta de alguma coisa, geralmente um objeto de valor. 

Musgo verde estacionava na margem entre a cidade de Puno e o Lago Titicaca


(Nota de 2019)

A história acima foi repetida várias vezes por pessoas que realizaram a travessia da fronteira por Desaguadero, entre Copacabana (BOL) e Puno (PER). É claro que toda informação desse tipo merece ser muito bem checada para não se fazer acusações vazias contra oficiais de outros países. P
rincipalmente nos dias de hoje, quando as chamadas Fake News são um problema muito mais sério do que em 2007 ou 2008. De qualquer forma, eu mantenho essa história aqui para que as pessoas que cruzem essa fronteira tenham cuidado. Vale lembrar que, apesar dos cuidados, não tivemos nenhum problema naquele dia e todos oficiais, bolivianos e peruanos, foram extremamente profissionais. A história, então, não representa nenhum tipo de acusação contra nenhum oficial de fronteira. É apenas um registro de algo que ouvimos muito, desde a saída do Brasil. 

(Continuando o texto de 2008)

Arrumamos a bagagem para que não ficássemos com nada de valor em mãos. Tomamos o ônibus na praça principal de Copacabana. Foi a primeira vez que eu viajei em um ônibus que mantinha um guia dentro, orientando os viajantes. Para nós, a melhor opção era estarmos em um ônibus repleto de turistas, já que com vários outros estrangeiros seria mais fácil passar despercebido.

Deixamos Copacabana rumo à fronteira. Durante o caminho, o guia nos avisou como era o processo de imigração peruano, mas, claro, não citou problema algum. Inclusive nos orientou a fazer câmbio de Bolivianos para os Soles Peruanos ali mesmo, em uma casa de moeda ao lado da polícia de fronteira, o que ignoramos por motivos óbvios.

As pessoas que passaram pela incômoda situação na fronteira nos aconselharam a nos manter sempre unidos, não sermos nem os últimos e nem os primeiros nas filas da imigração; não passar em frente à polícia de fronteira do Peru (não confunda policia de fronteira com oficial de imigração, são duas coisas distintas); não exibir objetos de valor, tal como jóias, mp3 players (isso era objeto de valor em 2007, hehe), celulares e outros. Eles ainda continuavam os conselhos: “se abordado por algum policial, finja que é gringo e que não fala nem espanhol e nem português”, recomendou um deles.

O ônibus parou poucos minutos após ter deixado Copacabana. Era uma estrada que contornava um morro. Na fronteira, a pista fora interditada para melhor controle do tráfego. Antes do ônibus seguir para o Peru, descemos todos com os documentos no bolso para encarar a imigração. Primeiro foi a imigração boliviana, onde entregamos uma folhinha preenchida lá na entrada do país e eles prosseguiram carimbando o passaporte para atestar que estávamos deixando a Bolívia.

Em seguida, andamos juntos até a casinha da imigração peruana, onde entregamos um formulário de imigração já previamente preenchido (o guia nos entregou no ônibus) que foi destacado pelo oficial e entregue uma parte de volta para nós (para ser entregue quando deixássemos o país). Logo em seguida, carimbou o nosso passaporte assinalando a data de entrada. Enfim, estávamos legal no Peru.

Ao deixar a imigração peruana, só nos restava voltar ao ônibus. Notamos que ele estava estacionado bem à frente da temida polícia de fronteira. Só que, ao contrário do que nos informaram, a porta estava virada para a estrada e não para eles. Aproveitamos a sorte e embarcamos rapidamente (sem aparentar pressa). Nesta hora estávamos muito felizes por conseguir concluir o processo sem demais complicações.

Falta limpeza
Quando o ônibus voltou a andar, já em solo peruano, o guia nos avisou que ali era uma hora a menos do que na Bolívia, que, por sua vez, era uma hora a menos que Brasília. Ou seja, estávamos duas horas a menos que Goiânia e a maior parte do Brasil. Foi aí que lembrei que, mais uma vez, entrávamos em um país sem ter um centavo do dinheiro local em espécie. Felizmente e diferentemente do Trem da Morte, a viagem até Puno seria rápida e lá teríamos várias casas de câmbio à nossa disposição.


Ilha de Urus: povo nativo que construíram as próprias ilhas
Puno tinha tudo para ser uma belíssima cidade. Cercada por montanhas e às margens do Lago Titicaca, se situa no meio de um cenário com potencial turístico fantástico. O problema é que Puno é muito mal cuidada. Por todo lugar, há lixo espalhado pelas ruas. Entre o lago e a cidade, há uma espessa camada de musgo verde que margeia todo o Titicaca. Assim, a cidade se consolidou como nada mais do que um lugar de passagem entre a Bolívia e Cuzco.

Ao descermos na rodoviária, percebemos que o guia do nosso ônibus poderia nos arrumar bons preços para as nossas futuras necessidades logísticas. As nossas colegas estavam enjoadas de Titicaca, então resolveram ir para Cuzco direto e chegar na capital Inca à noite. Eu e o Rodrigo queríamos fazer o passeio da Ilha de Urus, um povo indígena que tem uma cultura muito peculiar. Desta forma, fechamos com o guia tanto a viagem das meninas quanto o nosso passeio, além da nossa própria viagem até Cuzco, que sairia às 8h da noite.

Com tudo marcado, fomos até o centro para comprar soles peruanos e almoçar. Acho que foi o cansaço constante de ter de correr atrás de hotéis, empresas de ônibus, restaurantes e agências de turismo que fez com que entrássemos em um restaurante super-chique para almoçar. Ali, o ambiente era fino, a louça era aparentemente muito cara e os garçons usavam luvas. O preço era caro até para nós, felizes operários que recebíamos o nosso ganha-pão em Reais. É bom lembrar que no Peru a cotação nos desfavorece, já que o Sol Peruano vale bem mais que o Boliviano (R$ 1 -> Sol$ 1,5 contra R$ 1 -> Bs. 3,5, valor aproximado de 2007).

Sem muitas opções, pedi uma pizza brotinho, já que era um dos poucos pratos mais barato. Saindo do restaurante, nos separamos. As meninas pegaram um táxi para a rodoviária. Já que o nosso passeio era um pouco mais tarde, fomos dar uma volta para conhecer a cidade.

Ilhas artificiais
Ainda a 3.800 metros de altura em relação ao nível do mar, e com o sol de meio-dia bem em cima de nossas cabeças, cansamos logo de ficar perambulando por Puno e resolvemos seguir a pé até a rodoviária, já que o nosso passeio sairia de lá. Logo na chegada vimos que teríamos problemas, já que ninguém sabia informar de onde partiria o nosso ônibus. O horário do passeio foi se aproximando e tive a nítida impressão que o perderíamos, quando uma mulher da agência nos identificou e pediu que a seguíssemos.


Pegamos uma van e fomos até o porto, onde embarcamos em um barco amplo e bem conservado, rumo a ilha de Urus. Era um barco maior e muito mais veloz que aqueles de Copacabana. Desta forma, a nossa viagem pelo lago só durou cerca de quarenta minutos.

Entardecer na Ilha de Urus em Puno: grata surpresa no roteiro
A ilha de Urus, na verdade, é composta de várias ilhas. Elas todas são ilhas artificiais, construídas pelos seus próprios habitantes. Conta a história que o povo de Urus foi expulso do continente e forçado a sobreviver no lago. Assim, eles desenvolveram uma técnica de construção de ilhas, usando matéria-prima local. Eram nestas ilhas que, desde então, eles viviam, ano após ano.

Este foi um dos passeios mais interessantes que fiz em toda a jornada. Já na chegada, algumas guaritas de observação davam ao local um toque de Waterworld. O barco foi atracado em uma dessas ilhas e todos fomos saudados pelos Urus. Depois de várias explicações interessantes, que prenderam a minha atenção do início ao fim, pudemos caminhar livremente por parte da ilha para tirarmos fotos e observarmos. Também havia uma feirinha de artesanatos, onde podíamos comprar lembranças. É claro, mesmo no meio do Titicaca o capitalismo também impera. Tanto que comprei uma escultura, paguei em soles e recebi um dólar de troco. Guardei como prova da intensa globalização. (Nota de 2019: o Rodrigo também comprou uma escultura. Anos mais tarde, um vento localizado na sala dele fez com que o objeto caísse e se espatifasse ao chão. O meu continua são e salvo na minha estante de lembranças).

Rodoviária complicada
Já era final de entardecer quando voltamos a Puno. De volta à rodoviária, o momento era propício para comermos alguma coisa e esperarmos o ônibus. É quando mais sentíamos falta de lanchonetes fast-food tipo Bob’s, McDonalds, Burger King, Giraffas, ou qualquer outra. As rodoviárias bolivianas e peruanas geralmente não possuem local descente para alimentação. Durante a espera, o Rodrigo foi telefonar para a Erika, já que era seu aniversário. Eu, de bicão, claro que aproveitei os seus soles investidos no telefone para também dar os parabéns.


Entramos na área de embarque da rodoviária meia-hora antes do horário. As empresas peruanas, assim como as bolivianas, têm o péssimo hábito de não colocar o número da plataforma nas passagens. Assim, nunca sabíamos direito de onde o ônibus sairia. Neste caso, a falta deste “detalhe” quase foi fatal. A rodoviária de Puno foi construída em forma de cruz andina, ou seja, em nenhum lugar que você fique dá para ver todas as outras plataformas. Um martírio para localizar o ponto exato de onde sairia o ônibus.

O tempo foi passando e fui ficando ansioso. Faltando cinco minutos (ou nem isso) para o horário marcado tive, novamente, a sensação de que perderíamos o ônibus. Comecei a andar pela a confusa rodoviária em meio ao desespero. Foi quando achei o nosso ônibus, quase pronto para sair, atrás de onde estávamos. Saí correndo e fui chamar o Rodrigo. Quando chegamos de volta, confirmei ofegante com o motorista se era realmente o ônibus certo. “Para Cuzco?”, perguntei. “Sí”, me respondeu já de olho para engatar a marcha. Entramos e antes que pudéssemos nos acomodar em nossas poltronas, o ônibus arrancou rumo à velha capital Inca.

Mapa do Caminho - Dia 12

Data: 15/06/2007
Saída: Copacabana, Bolívia
Chegada: Puno, Peru
Distância percorrida no dia: 138 km
Empresa de ônibus: sem informação
Duração da viagem: +- 3h
Tarifa: sem informação


* Texto originalmente publicado em junho/2008 e revisado antes da atual postagem

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